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Insônia

Passar noites em claro pode soar poético. Mas mesmo os poetas reclamam das horas maldormidas: “Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo. E o meu sentimento é um pensamento vazio”, lamentou Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, em Insônia. Fora da literatura, a insônia atrapalha o sono – e a vida – de uma parcela considerável das pessoas: entre 5% e 10% da população geral sofrem com o mal, segundo estimativas do neurolofisiologista Flávio Alóe, do Centro de Estudos do Sono do Hospital das Clínicas de São Paulo. A incidência pode ser ainda maior entre alguns segmentos: de acordo com estudo da Sociedade Brasileira do Sono realizado na capital paulista, o problema atinge mais de 40% entre pessoas entre 20 e 80 anos.
Mas, afinal, como saber se a falta de sono pode ser qualificada como um transtorno ou decorre de simples situação passageira? E quais riscos ao organismo as noites maldormidas podem provocar?
Segundo o médico, a insônia se define pela “percepção subjetiva de dificuldade para começar ou continuar dormindo ou acordar cedo demais”, além de combinações de sintomas diurnos como cansaço e fadiga. “É um transtorno de 24 horas”, resume. “Não é porque a pessoa dorme mal e acha que fica bem durante o dia que não deve se preocupar: em algum momento, ela vai ter prejuízos”.

INSÔNIA, AS ORIGENS DO PROBLEMA
De acordo com o Instituto do Sono, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), “a insônia é a ponta de um enorme iceberg” e deve ser analisada sob três aspectos: físico, psicológico e social. Ou seja, não se pode culpar unicamente as situações de ansiedade e stress pelas noites mal dormidas. Muitas vezes, a raiz do problema está escondida onde só um médico pode encontrar.
Entre as possíveis causas da insônia, estão doenças físicas, uso de medicamentos e até distúrbios hormonais (hipertireoidismo). Doenças psiquiátricas e neurológicas como depressão, Parkinson, esquizofrenia, derrames cerebrais e Alzheimer também podem trazer dificuldades. Nesses casos, a ajuda especializada é fundamental. O coordenador do Instituto do Sono da Unifesp, Sérgio Tufik, acrescenta ainda outro elemento causador da insônia: o medo. “Medo, na natureza, é exatamente o contrário do sono: só dorme quem está tranqüillo”, afirma.
Como se não bastassem esses fatores involuntários, pioramos ainda mais nossa qualidade de sono – ou até mesmo desencadeamos a insônia – com hábitos errados que adquirimos no dia-a-dia. Falta de rotina para dormir, ambiente inadequado e ingestão de bebidas alcoólicas são alguns erros comuns.
O ambiente – A qualidade do sono depende em grande medida do ambiente em que se repousa. Por isso, características básicas como barulho, calor ou claridade excessivas devem ser levadas em conta.
O médico lembra ainda que o sono é influenciado pelo ambiente “de uma forma perceptível e imperceptível”. “Em outras palavras, você pode achar que está dormindo bem em um lugar barulhento ou em um lugar não ideal e não perceber o problema”, explica. Ou seja, deve-se manter o quarto nas condições ideais sempre: escurecido, fresco e silencioso. Outra dica: desligue a TV, pois a luz da telinha prejudica a secreção da melotonina, um hormônio que induz o sono e só é produzido no escuro.

TRATAMENTOS PARA INSÔNIA
Muitas vezes, a insônia é apenas o reflexo de uma série de comportamentos errados adquiridos durante o dia. Nesses casos, uma mudança de hábitos relativamente simples pode resolver o problema.
Se não é possível pegar no sono, mesmo obedecendo as orientações, é hora de procurar um especialista. “Uma insônia que persiste de um a dois meses já está se encaminhando para uma insônia crônica”, alerta o neurologista Luciano Ribeiro, presidente da Associação Brasileira do Sono. Ele acrescenta: “Insônia não tem dica; tem tratamento”.
Basicamente, o tratamento é dividido em não-farmacológico e farmacológico. No primeiro, a principal indicação é a terapia comportamental cognitiva (TCC). No ambulatório, o paciente é atendido por uma equipe médica, que fornece o diagnóstico e em seguida o encaminha para uma avaliação psicossocial – que avalia em detalhes o cotidiano do indivíduo.
A TCC para insônia, por sua vez, é constituída de seis a oito sessões, feitas em grupo de até dez pessoas. Nelas, os pacientes recebem informações gerais sobre o distúrbio e sobre como deve ser uma noite ideal de sono. Também aprendem técnicas de alteração de comportamento. “São mudanças de pensamentos, de conceitos, de mitos, de crenças individuais que o indivíduo adquire. É onde ele se defronta com o seu próprio conhecimento”, explica o neurologista. Todo o tratamento, a contar da chegada do paciente no ambulatório até o fim da TCC, leva de três a quatro meses, calcula Ribeiro.
O tratamento farmacológico, como diz o nome, apóia-se em administração de medicamentos. Neste caso, entram em cena, os hipnóticos, antidepressivos e tranquilizantes - alguns até um pouco controversos, como os benzodiazepínicos.
A escolha do medicamento correto vai depender fundamentalmente do diagnóstico, já que a insônia pode estar associada a outros transtornos, como depressão e ansiedade. Nesses casos, que são enquadrados na chamada insônia secundária, a falta de sono é tratada como um sintoma. O tratamento, então, é direcionado à doença de origem.
Na opinião de Ribeiro, a grande chave no tratamento da insônia é uma mudança de pensamento. “O insone vê a insônia como protagonista da vida dele e ele tem que deslocar esse sintoma como coadjuvante; ver o que realmente está acontecendo na vida desse indivíduo, qual é o problema maior que talvez ele tenha. Esse é o grande segredo”, diz.

Fonte: http://veja.abril.com.br/especiais_online/insonia/index.shtml, texto adaptado para Dermus Farmácia Dermatológica e Cosmética Ltda.



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